A Face do Adventismo EstÁ Mudando?


Pastor Jan Paulsen, presidente mundial
da Igreja Adventista do Sétimo Dia

Como praticar os valores eternos em nossas culturas mutantes

Para alguns, é inquietante ver as palavras “mudança” e “adventismo” na mesma frase. Nossa igreja está mudando? Sua aparência está diferente, ela soa diferente, expressa-se de modo diferente de como era há décadas? Há duas ou três décadas? E se houver diferenças, como deve ser nossa atitude em relação a elas?

A ideia de mudança pode ser profundamente perturbadora. Preferimos o que conhecemos, o confortável, o familiar.

O que pertence ao hoje, entretanto, está em constante alteração, num processo de “tornar-se”. Encontro mudança inevitável quando olho no rosto dos meus filhos e netos, ou quando abro o jornal ou acesso a Internet. Ouço com clareza as mudanças nas palavras dos jovens profissionais adventistas que me falam sobre seus sonhos para sua igreja. Vejo a força da mudança na adoração das mulheres africanas ao se movimentarem enquanto cantam com alegria ao entrar na igreja. A experiência do poder da mudança ao adorar com os fiéis adventistas da China, que por tanto tempo estiveram separados da comunidade mundial da igreja e que me disseram: “Nós ainda pertencemos à igreja? Ainda fazemos parte da família?”


A ilusão de que nós, como igreja, podemos permanecer estáticos enquanto o resto do mundo, ao nosso redor, está em constante movimento, é exatamente isso, apenas ilusão. Nossa igreja existe dentro dos parâmetros do tempo, geográficos e culturais, e assim também deve mudar. Somos atingidos pelas forças externas – política, economia, cultura e realidades tecnológicas – que estão absolutamente além de nosso controle. Há, ainda, forças internas, que existem simplesmente pelo que somos: uma família de 25 milhões de homens, mulheres e crianças; centenas de culturas, línguas e nacionalidades unidas em Cristo. Mudanças ocorrem porque a comunidade do adventismo está crescendo; ela é dinâmica e está viva.

A face do adventismo está mudando? Sim, em alguns aspectos. Isso é algo a ser temido, algo a ser resistido? Penso que não.

Andando Para Trás em Direção ao Futuro?
Embora a mudança seja inevitável, nossa reação não é. Há essencialmente duas atitudes que podemos adotar. Podemos virar o rosto na direção do passado, fixar nossos olhos no caminho pelo qual já passamos e tentar andar para trás em direção ao futuro. Assim, passamos a ver todas as mudanças como inerentemente perturbadoras, e que, de certo modo, quebram nossa lealdade à nossa herança espiritual; quase uma apostasia. Perguntamos ansiosamente uns aos outros: “O que devemos fazer?”

Outra alternativa é dar a volta e encarar o futuro, com todas as incertezas e desafios. O passado deixa de ser um destino, mas algo que ajuda a definir a essência de nossa identidade e valores, e define a direção para onde estamos indo; nesse caminho, vamos com o nosso passado rumo ao futuro. A questão crucial passa a ser: “Como podemos orientar e canalizar essas forças de mudança no que é bom para a igreja e para sua missão?”

Creio que o adventista se congelou em determinado tempo ou cultura, perdeu-se no caminho. Ele não mais responde criativamente aos desafios; perdeu a habilidade de adaptar seus métodos, estrutura e o modo como usa seus recursos para levar adiante a missão para um mundo em mudança.

Veja as palavras de Ellen White: “Não podemos ser aceitos por Deus prestando o mesmo serviço, ou fazendo as mesmas obras que nossos pais. A fim de ser aceitos e abençoados por Deus como eles foram, cumpre-nos imitar sua fidelidade e seu zelo, aperfeiçoar nossa luz como eles fizeram à sua e fazer como eles teriam feito caso vivessem em nossos dias. Cumpre-nos viver segundo a luz que brilha sobre nós, do contrário, essa luz tornar-se-á em trevas” (Testemunhos Para a Igreja, v. 1, p. 262).

Como podemos “andar na luz que brilha sobre nós”? Como trazemos conosco as verdades eternas de ontem para a realidade de hoje?

Isso requer uma mentalidade que não teme mudar simplesmente por ser uma mudança. Exige a capacidade de discernir o que é transcendente, os valores imutáveis e verdades que nos permitem negociar com segurança em um mundo em mudança.

Verdades Imutáveis
Tudo o que está vivo passa por mudanças; elas acontecem independentemente da minha ou da sua opinião a respeito dela. Sabendo disso, vamos deixar que as mudanças aconteçam desenfreadamente? Permitiremos que elas conduzam e determinem a vida e o testemunho da igreja?

O apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, retorna várias vezes à necessidade de salvaguardar a verdade. “Timóteo, guarde o que lhe foi confiado” (1Tm 6:20, NVI); “Retenha… o modelo da sã doutrina que você ouviu de mim. Quanto ao que lhe foi confiado, guarde-o por meio do Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1:13, 14, NVI); “Permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu” (2Tim. 3:14, NIV). Paulo está dizendo: “Cuide de sua herança espiritual. Compreenda o que você crê e leve consigo por toda a vida.”

Há coisas do nosso passado que chegam ao Adventismo como “inegociáveis”. São nossa herança espiritual. Não estão abertas à reinvenção, modificação ou relegadas a um lugar de menor importância. Elas são o nosso direito de nascença, as pedras fundamentais de nossa fé; quem determina nossa identidade e missão. Devemos levá-las conosco ao futuro.

Quais são essas constantes?

Em primeiro lugar, Cristo, como chega até nós pela história e como O encontramos nas Escrituras. Ele é e sempre será o Único, a “Rocha Inabalável”.

Segundo, a Bíblia, pois é a voz de Deus dando valores e direção à raça humana. As Escrituras nos falam sobre a segunda vinda de Cristo, sobre Seu atual ministério de reconciliação e julgamento, sobre como Ele fez a vida e a nós neste planeta, sobre Seu dom profético para a igreja, e a lista pode estender-se até incluir cada uma das nossas 28 crenças fundamentais.

Terceiro, o propósito de Deus para cada um de nós, como indivíduos; pois o vínculo espiritual pessoal entre mim e meu Criador deve existir antes que eu possa tomar o meu lugar como um membro do Corpo de Cristo.

E, finalmente, nossa história comum, como igreja; tudo o que responde à pergunta: “Qual é o propósito do Adventismo? Por que Deus levantou esse movimento?”

Essas quatro constantes não são “talvez sim/talvez não”. Elas têm significado em todas as culturas e não são diminuídas com o passar do tempo ou pela mudança de normas sociais. Elas existem acima e além das mudanças do mundo. E no âmbito dessas constantes, encontramos um corpo enorme de valores que nos identificam. Abordamos as mudanças com uma atitude de força e certeza.

Navegando num Mundo em Mudança
Posso compreender o temor e o espanto de Pedro quando testemunhou a glória do Cristo transfigurado. “Senhor”, ele disse. “Vamos ficar aqui. Vamos fazer três tendas aqui na montanha; uma para Ti, uma para Moisés e outra para Elias”(veja Mt 17:1-5). Mas Cristo desceu a montanha e continuou Seu ministério pela humanidade.

O Adventismo também não pode ficar na montanha; deve ir às comunidades em que vivemos e trabalhamos, com toda sua sujeira, desordem e mudança.

Nos últimos anos, tenho a consciência aguçada sobre vários pontos de pressão para mudança dentro do Adventismo, que vêm de muitas, muitas fontes diferentes. Tornei-me, também, mais cônscio da necessidade de eu, como líder da igreja, cultivar uma atitude não defensiva em relação às mudanças, de olhá-las para o que representam, na prática; para testá-las em relação às constantes de nossa fé como chegam a nós pelas Escrituras.

Onde as mudanças irão nos testar?

A pressão para mudança chegará a nós pelo campo político. A igreja deve funcionar dentro do ambiente em que foi colocada; ela não tem muita escolha. A igreja, no Ocidente, tem pouca repressão. Em muitos lugares ao redor do mundo, a igreja tem que achar caminhos para se adaptar às realidades políticas sem comprometer seus mais altos valores como comunidade de fé. Em lugares em que podemos falar abertamente, a voz do Adventismo deve ser claramente ouvida, sem nenhum partidarismo político, nos assuntos que tocam nossos principais valores: liberdade e direitos humanos, justiça, cuidado com os nossos semelhantes. Os membros da igreja devem perguntar: “Será que devo me envolver mais no cenário social e moral de minha comunidade ou nação? Como posso fazer isso? Como posso contribuir? Será que devo me envolver politicamente?”

As mudanças de atitude da humanidade em relação à conduta e à moralidade também nos testarão. Em muitos lugares, há diálogos públicos sobre a definição de casamento e a implicação disso para a sociedade. Como nós, adventistas, lidamos com o assunto? Isso é algo que não tivemos que debater há vinte anos. A igreja não pode e não irá aprovar mudanças de atitudes morais que contrariam os preceitos claros das Escrituras, mesmo quando são aprovados por lei. E será que isso pode influir no funcionamento da igreja? Talvez. A igreja tem que explorar o delicado equilíbrio entre ser cidadãos da Terra obedientes e seres humanos equilibrados, sem se desviar dos valores bíblicos. As coisas nunca foram fáceis, mas devem ser enfrentadas.

As mudanças continuarão a chegar até nós pela tecnologia, especialmente a tecnologia da comunicação e mídia. Essa é uma área em que eu acredito que o Adventismo deve se engajar. Estamos nos atualizando com as possibilidades que essas novas mídias nos apresentam? Estamos dispostos a explorar novos métodos de comunicação, na esperança de alcançar setores da humanidade, particularmente os jovens, que se tornam cada vez mais seletivos em suas fontes de informação?

Outra área em que as mudanças chegam até nós é na forma do culto. Somos uma comunidade global e cada um de nós é filho de um tempo específico e de uma cultura. É natural que haja variações no formato do culto, no estilo de música ou no nível de formalidade ou espontaneidade. Nem todos necessariamente cantam acompanhados por um órgão! Tenho que ser muito cuidadoso para não rotular de pecaminoso tudo que não combina com minhas tradições, simplesmente porque é diferente. Do mesmo modo, quando encontro as pessoas, mesmo dentro da minha comunidade de fé, cuja aparência não combina com minhas expectativas, que eu não seja muito apressado em concluir que eles estão se afastando do Senhor. Sejamos gentis com as pessoas, pois no fundo, quando tudo é retirado deles, o que fica são as pessoas – não coisas, ideias ou expressões culturais – as quais Cristo irá salvar.

Uma atitude não defensiva à mudança é especialmente importante quando atinge o modo em que abordamos a missão. Deve haver flexibilidade, elasticidade, em nosso modo de pensar que nos permita responder efetivamente às mudanças ambientais nas quais nos encontramos. Assim, as iniciativas e os programas para a missão podem mudar de ano para ano. A maneira como usamos nossos recursos, nossas prioridades de gastos, vai mudar. Políticas e estruturas não devem ser servas da tradição, e não devem ser investidas com uma aura de santidade, simplesmente porque “esse era o modo como sempre fizemos”. Ao contrário, a política da igreja deve servir à unidade da igreja e sua missão, e a linguagem da política deve ser moldada pela simples pergunta: “O que temos que realizar? O que é bom para a igreja?”

Evangelho da Mudança
Nós servimos a um Senhor que não é campeão do status quo. O evangelho de Cristo é, no fundo, um evangelho de transformação, de mudança radical. Cristo disse: “Nicodemos, 
você tem que nascer de novo. O que você é agora não é suficiente. Vou transformá-lo em uma nova pessoa.” Em Apocalipse, Cristo declara: “Eis que faço novas todas as coisas.”

As mudanças virão. Virão porque nossa igreja está viva e saudável, e virá porque o mundo ao qual pertencemos está constantemente mudando. Compararemos as mudanças com as constantes de nossa fé. Perguntaremos: “Isso está nos unindo como comunidade espiritual? Será que expande nossa missão? Assim, caminharemos, sem medo, para o futuro de Deus. 

O pastor Jan Paulsen escreve mensalmente para a Adventist World, periódico mensal publicado pela Review and Herald Publishing Association.


Fonte: Adventist World (março de 2010)
http://portuguese.adventistworld.org/

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